Por Camila Lafetá, nutricionista

Há duas semanas, especialistas em transtornos alimentares, pacientes, familiares e ativistas de todo o mundo receberam uma notícia com o potencial de causar uma reviravolta na concepção e no tratamento da anorexia nervosa (AN). Resultados do maior estudo genético já feito sobre a doença sugerem que ela, hoje classificada como transtorno psiquiátrico, também pode ter componentes metabólicos em seu desenvolvimento.

O artigo[1], publicado na Nature Genetics, é fruto do trabalho da colaboração internacional ANGI – Anorexia Nervosa Genetics Initiative –, liderada pela pesquisadora Cynthia Bulik, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, EUA, e que envolveu pesquisadores do Karolinska Institutet (Suécia); da Aarhus University (Dinamarca); do Berghofer Queensland Institute for Medical Research (Austrália) e da University of Otago (Nova Zelândia).

O objetivo principal da ANGI era ampliar o número de amostras disponíveis para conduzir estudos de associação por varredura genômica (em inglês, genome-wide association studies, ou GWAS), com o objetivo de detectar as bases genéticas da AN. Nos GWAS, busca-se identificar as relações entre um determinado fenótipo e possíveis marcadores genéticos. Dada a complexidade dos transtornos psiquiátricos, estima-se que sejam necessários milhares de amostras para identificar, com poder estatístico, as variantes genéticas a eles associadas.

Estudos genéticos sobre a AN vêm sendo publicados desde 2011. O primeiro GWAS, publicado em 2017, identificou uma região (locus) no cromossomo 12 que já havia sido previamente associada ao diabetes tipo I e a doenças autoimunes[2].

O sucesso da ANGI ampliou em 4 vezes o número de doadores, permitindo a análise do DNA de 16.992 indivíduos com história de AN e compará-lo ao de 55.525 pessoas sem a doença. Ao todo, foram detectadas 8 regiões cromossômicas únicas a pessoas com AN. Algumas delas confirmaram associações já conhecidas com transtorno obsessivo compulsivo, transtorno depressivo maior, esquizofrenia e ansiedade, além de traços de personalidade como neuroticismo e perfeccionismo. Uma correlação inédita com prática elevada de exercício físico foi observada, o que reflete um sintoma comumente encontrado na AN.

A grande novidade, no entanto, surgiu na associação da AN com regiões responsáveis por características metabólicas. Um exemplo está na capacidade de pessoas com AN chegarem a pesos muito baixos e terem dificuldade de manter um peso saudável após sua recuperação. Os modelos que explicam a doença exploram unicamente os aspectos psicológicos, mas o estudo identificou correlações negativas com percentual de gordura corporal, massa muscular, IMC, obesidade, diabetes tipo 2, insulina, glicemia, entre outros. Em termos práticos, é possível que a AN envolva uma desregulação extrema do peso corporal que force o organismo a um set point muito baixo, contrariamente ao que ocorre na obesidade, em que o corpo "luta" para voltar ao peso inicial depois de uma dieta.

Esses achados, dizem os autores, justificam a reconceptualização da AN como uma doença de ordem psiquiátrica e também metabólica. É provável que centenas de outras variantes estejam envolvidas no processo da AN, mas o estudo já indica um grande potencial para o estudo e desenvolvimento de novos tratamentos e contribui para aliviar a carga de culpa a que os pacientes e suas famílias ainda são submetidos.

Fonte de texto: www.genta.com.br